Como a humanidade poderia durar para sempre

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A nossa espécie enfrentará inúmeros riscos existenciais nas próximas décadas, seja de guerra nuclear, mudança climática, uma pandemia, superinteligência artificial, nanotecnologia molecular, ou ameaças que ainda sequer concebemos. Desespero, cinismo e misantropia não nos levarão a lugar nenhum, e precisamos começar a pensar em maneiras práticas de garantir a sobrevivência contínua da nossa espécie.

Nosso universo existe há quase 14 bilhões de anos e provavelmente continuará existindo por muitos bilhões mais. O Homo sapiens existe há aproximadamente 300.000 anos – não chega a ser um piscar de olhos, em termos cósmicos. Não devemos desperdiçar nossa incrível oportunidade para uma existência prolongada.

É claro que, por “nós”, estou me referindo às futuras ramificações dos seres humanos, pois nossa espécie provavelmente mudará drasticamente nos próximos séculos, se evitarmos a extinção com sucesso. Além disso, se somos capazes de evitar um apocalipse e ser um pouco razoáveis, é justo dizer que o prolongamento indefinido da vida é um bem inalienável, supondo que entremos em um modo benigno de existência. Deveríamos querer fazer isso, pois a alternativa – a erradicação – não seria uma escolha. Consequentemente, é algo que devemos considerar seriamente.

O primeiro passo será evitar a emergência climática em que estamos envolvidos. O progresso tecnológico, social e econômico será muito difícil se toda a nossa energia e recursos forem usados para mitigar as ameaças decorrentes de um ambiente em deterioração. Também devemos encontrar maneiras de sustentar uma população global crescente, aliviar o estresse causado pela distribuição desigual da riqueza e viver de forma sustentável em um planeta com recursos finitos.

Com urgência, precisamos enfrentar uma realidade sombria: nossa civilização em breve terá que lidar com uma gama crescente de riscos existenciais e catastróficos, em que cada cenário adicional do dia do juízo final aumentará imensamente as chances de nossa autodestruição. É fundamental que encontremos soluções práticas e sensatas, se quisermos que a nossa civilização – e nossa espécie – dure para sempre. Abaixo, algumas coisas que podem ser feitas para manter o legado humano vivo:

Humanidade distribuída

Criar garantias poderosas, governos e instituições culpabilizáveis e políticas efetivas e aplicáveis em escala global são importantes para que nossa civilização sobreviva até o século 22 e além, mas há um triste fato que devemos considerar: Nosso estado atual da tecnologia está nos forçando a manter todos os ovos em apenas uma cesta. Portanto, precisamos nos tornar uma espécie interplanetária.

Porém, uma vez que desenvolvemos a capacidade de viver fora do planeta, pode ser melhor dividir-nos em grupos separados e seguir em direções diferentes – mesmo que isso signifique perder para sempre o contato um com o outro. É uma ideia que chamo de humanidade distribuída.

Encontrar maneiras de viver longe da Terra deve ser uma de nossas maiores prioridades, mas nosso pensamento precisa ser muito maior do que isso. Também precisamos desenvolver uma mentalidade interestelar – possivelmente até mesmo uma mentalidade intergaláctica – caso desejemos que nossa civilização permaneça até os dias finais do cosmos.

Tal como está, ainda temos que desenvolver uma biosfera viável e auto-sustentável, e quando pensamos sobre isso, é realmente desanimador, se não completamente alarmante. Durante as décadas de 1970 e 1980, os soviéticos experimentaram o BIOS-3 na Sibéria, mas o sistema dependia muito de recursos externos para ser considerado uma verdadeira biosfera. Quanto ao projeto de 2 milhões de dólares Biosphere2, dos anos 90, ele simplesmente não funcionou: a casa exibia níveis flutuantes de CO2, quantidades insuficientes de oxigênio, água ácida e até habitantes que exibiam disfunção social depois de ficarem presos por tanto tempo.

Esses desastres significam que a Terra possui a única biosfera em funcionamento que conhecemos. Esta é uma notícia preocupante, porque precisaremos de biosferas artificiais se quisermos viver fora do planeta, seja na Lua, Marte ou em uma nave em direção ao exoplaneta habitável mais próximo.

Consequentemente, precisamos reiniciar nossos projetos da biosfera, e não apenas porque eles permitiriam a vida fora do planeta; biosferas auto-sustentáveis podem eventualmente se tornar um requisito na Terra, se nosso ambiente entrar em colapso. Além disso, elas também poderiam informar esforços futuros de geoengenharia no nosso planeta e possivelmente em outros planetas, como Marte.

Também devemos adotar uma abordagem interestelar para a exploração espacial. Não poderemos enviar colonos para outro sistema estelar por algum tempo, mas o dia está se aproximando rapidamente, quando poderemos enviar sondas para explorar exoplanetas distantes. Uma ideia lançada pelo falecido Stephen Hawking e pelo bilionário Yuri Milner pede a construção de uma nave interestelar que poderia viajar mais de 20% da velocidade da luz. Incrivelmente, poderíamos possuir as tecnologias necessárias para fazer isso em apenas alguns anos. Tais sondas seriam enviadas em missões de reconhecimento, nos alertando para a presença de mundos potencialmente habitáveis. A partir daí, poderíamos construir e lançar naves espaciais cheias de colonos esperançosos.

Supondo que encontraremos maneiras de viver fora do planeta, um estado de humanidade distribuída nos ajudaria a evitar a destruição coletiva em massa, seja por causas naturais ou autoinfligidas. Nos espalhar pela Via Láctea impediria que todos nós fôssemos mortos em um apocalipse autoinfligido, por exemplo, ou impediria a proliferação generalizada de patógenos perigosos. Além disso, se um grupo fosse destruído, por alguma calamidade natural (como uma estrela próxima passando por supernova ou por suas próprias mãos), outros grupos sobreviveriam.

Uma desvantagem da humanidade distribuída é o potencial para riscos convergentes. Grupos dispersos, apesar de não terem contato, ainda podem evoluir ao longo de linhas paralelas e potencialmente chegar até as mesmas maneiras de morrer – ao mesmo tempo em que não conseguem alertar outros grupos sobre ameaças iminentes. Esses riscos convergentes podem envolver a criação de uma forma perigosa de superinteligência artificial, um experimento fatal de física, modos de existência regressivos e irrecuperáveis (como uma modalidade política totalitária) ou algo além que ainda não vimos.

Existência Pós-Biológica

Evitar a extinção é bom, mas também precisamos nos tornar mais duráveis e resistentes como indivíduos. Se vamos viver no espaço, teremos que nos reorganizar biologicamente. Mas nossas chances de sobrevivência a longo prazo serão dramaticamente aumentadas quando passarmos dos modos de existência biológico para o digital (embora a estratégia para senescência desprezível para organismos biológicos não deva ser descartada como uma possibilidade). Parece extremo – e é -, mas a vida como um ser cibernético ou digital apresenta alguns benefícios.

Em primeiro lugar, teríamos uma vida útil indefinida. Um ser que for carregado para o mundo digital pode viver em um ambiente robusto de realidade virtual hospedado dentro de um supercomputador, cuja localização realmente não importa (embora talvez possa ser que ele deva ser colocado em algum lugar frio para maximizar a eficiência computacional). Civilizações inteiras poderiam viver em um único supercomputador, possibilitando a existência de trilhões e trilhões de indivíduos, cada um deles uma emulação cerebral única. Esses supercomputadores poderiam, por sua vez, ser duplicados e espalhados por toda a galáxia e além, no que poderia ser descrito como pós-humanidade distribuída.

Vários futuristas especularam sobre os poderosos supercomputadores necessários para executar essas emulações cerebrais e, coletivamente, civilizações pós-humanas. O falecido físico Robert Bradbury (com quem tive o privilégio de colaborar em nosso artigo de 2011 no periódico JBIS de 2011 sobre o Dysonian SETI), previu a existência do que ele chamou de Matrioshka Brains (Cérebros Matrioshka). Essas megaestruturas hipotéticas tirariam sua energia de estrelas próximas, permitindo um tremendo potencial computacional. Uma idéia semelhante, chamada Jupiter Brains, funcionaria em uma escala planetária menor. Dada a natureza finita das estrelas, no entanto, as civilizações digitais teriam que se mudar para encontrar fontes alternativas de energia.

Outro benefício importante da existência digital seria a capacidade de fazer backup na nuvem. A morte de uma emulação cerebral, por conta de um desastre natural ou de algum problema interno imprevisto, seria trágica, mas uma cópia ou cópias reestabelecidas dessa pessoa poderiam sobreviver.

A existência digital também poderia permitir viagens sem corpo pelo espaço à velocidade da luz. Viajando como um fluxo descompilado de 1s e 0s, um viajante digital interestelar chegaria a uma estação de retransmissão em outro planeta ou em algum outro local distante no espaço.

Tudo isso é altamente especulativo, é claro. Ainda não sabemos ao certo se a mente humana pode ser traduzida da maneira descrita aqui ou se a vida digital é realmente mais segura ou mais saudável do que a existência biológica.

Nesse modo digital pós-humano e pós-biológico, é possível conceber uma existência até o fim do universo. Mesmo assim, podemos ainda encontrar maneiras de persistir até os últimos minutos possíveis, literalmente.

Imortalidade cultural

Na falta de tudo isso, ainda podemos encontrar outras maneiras de viver para sempre, embora em um sentido mais simbólico.

Semelhante à maneira como as sondas Voyager da NASA foram equipadas com o Disco de Ouro – um disco de cobre banhado a ouro de 12 polegadas codificado com sons e imagens da Terra – também poderíamos enviar uma cápsula do tempo cultural para as profundezas do espaço, mas com mais detalhes. As sondas Voyager foram lançadas antes da era digital e as tecnologias de armazenamento emergentes reterão muito mais informações.

Em 2016, por exemplo, os cientistas desenvolveram um novo sistema de armazenamento que pode codificar dados em escala atômica. Nos testes, o dispositivo conseguiu empacotar 500 terabits em uma única polegada quadrada – o suficiente para armazenar todos os livros escritos por humanos em uma unidade do tamanho de um selo postal.

No futuro, tecnologias semelhantes podem nos permitir empacotar toda a cultura humana em um meio de armazenamento, carregá-la em uma sonda interestelar e enviá-la para o espaço profundo. Se uma civilização extraterrestre tiver a sorte de interceptar essa sonda, ela terá o valor de uma civilização inteira para analisar – supondo que possamos criar um tipo de pedra de Rosetta para ajudar na tradução. Como alternativa, poderíamos transmitir esses dados para o espaço através de ondas de rádio ou pulsos de laser, mas a fidelidade desses dados seria muito reduzida (enviá-los como um farol digital repetitivo ajudaria).

Além de compartilhar nosso conhecimento cultural, científico e tecnológico, também poderíamos dar importantes lições históricas, sabedoria e conselhos.

Por fim, poderíamos deixar nossos artefatos culturais bem aqui na Terra, como uma espécie de monumento para nós mesmos quando partirmos. Ao mesmo tempo, esses monumentos poderiam servir como um conto de advertência para visitantes extraterrestres – um aviso de que eles não deveriam repetir os erros cometidos por uma espécie largada para se defender sozinha em um canto esquecido da Via Láctea.

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